Próximos Eventos
Oficina LEME com Eduardo Carneiro Luz (PUC-Rio)
Revisitando o paradoxo da previsibilidade
Morgenstern (1928) e Popper (1957) intuíram, em contextos distintos, o seguinte. Se previsões precisas dos fenômenos sociais fossem possíveis, e se essas previsões se tornassem conhecidas, então as pessoas reagiriam a elas, falseando-as. Exemplos abundam, dos mais complexos aos mais mundanos. A previsão de que haverá guerra pode implicar maiores esforços diplomáticos entre as partes envolvidas no potencial conflito, falseando-a, felizmente. A previsão de que um conhecido pedirá uma média no café-da-manhã pode implicar o pedido por um chá, só para contrariar, não importando o quanto o conheça, mesmo tendo certeza de que ele pediria uma média se estivesse sozinho. Esses são exemplos do Paradoxo da Previsibilidade. Ele emerge quando um preditor interno (que é parte do universo) revela sua previsão a uma entidade contra-preditiva, que age deliberadamente num sentido oposto à previsão revelada. Decorre disso que esse preditor não conseguirá prever o comportamento dessa entidade se a previsão for revelada antes da sua ação. Essa constatação independe do caráter determinístico do universo, e de quão poderoso é o preditor em questão. Esse universo não seria essencialmente imprevisível, um preditor externo (que não é parte dele, ou que pudesse não revelar sua previsão), poderia perfeitamente prever o comportamento da entidade contra-preditiva, mas para um preditor interno, a previsão seria impossível (RUMMENS & CUYPERS, 2010). Nesta apresentação, investigo a solidez do argumento proposto por Rummens (2024), isto é, se a inferência é válida e se suas premissas são plausíveis. Essa investigação também exige a avaliação da formalização lógica do argumento e eventual sugestão de melhorias. Por fim, exploro brevemente em que medida as constatações do Paradoxo da Previsibilidade poderiam contribuir de alguma forma para o debate entre compatibilismo e incompatibilismo sobre livre-arbítrio; e para as discussões sobre o caráter governista das leis da natureza.
Oficina LEME com Danilo Rocha (PUC-Rio)
Uma avaliação do argumento do desígnio
O argumento do desígnio sustenta que a ordem e a complexidade observadas na natureza são mais bem explicadas pela existência de uma inteligência projetista. Em sua formulação clássica, associada a William Paley, o argumento baseia-se na analogia entre artefatos humanos e organismos naturais: assim como a existência de um relógio implica a existência de um relojoeiro, a complexidade funcional dos seres vivos indicaria um desígnio inteligente. Essa estrutura não constitui uma dedução, mas uma inferência ampliativa fundada na semelhança entre diferentes domínios. Reformulações contemporâneas procuram fortalecer o argumento ao afastá-lo da dependência exclusiva da analogia, apresentando-o como uma inferência à melhor explicação ou como uma hipótese probabilística voltada ao ajuste fino do universo. Nesse contexto, a hipótese de um projetista é defendida como simples e unificadora, capaz de explicar um amplo conjunto de fenômenos. A crítica de Hume, no entanto, permanece central para a avaliação do argumento. Hume questiona a força da analogia entre o mundo e artefatos humanos, ressaltando que tal comparação é limitada e não justifica conclusões robustas sobre a origem do universo. Além disso, destaca que diferentes hipóteses podem ser compatíveis com os mesmos dados, o que enfraquece a inferência para um projetista específico. Embora versões contemporâneas do argumento procurem afastar-se da analogia clássica e se apresentem como inferências probabilísticas ou explicações do ajuste fino do universo, as objeções humeanas permanecem relevantes ao questionarem o alcance dessas inferências e a possibilidade de hipóteses alternativas igualmente compatíveis com os dados observados. Dessa forma, defenderei que, embora as reformulações contemporâneas busquem conferir ao argumento maior sofisticação probabilística, elas permanecem vulneráveis às objeções de Hume quanto aos limites das inferências realizadas a partir da ordem observada no universo.
Oficina LEME com Renata Augusto
Uma resposta ao argumento lógico em favor do fatalismo
Nesta apresentação, é oferecida uma resposta ao argumento lógico em favor do fatalismo proposto recentemente por Lampert e Merlussi (2026, submetido). Em sua proposta, os autores usam a estrutura do famoso argumento de Church-Fitch, conhecido como paradoxo da conhecibilidade, para mostrar que a mera possibilidade de não termos escolha sobre alguma proposição verdadeira (fatalismo fraco) colapsa na certeza de que tudo já está fixado (fatalismo). Ao mostrar a inconsistência do fatalismo fraco com o livre-arbítrio, os autores defendem terem demonstrado logicamente que não teríamos escolha sobre nossas ações. Em que pese assumir a validade lógica do argumento apresentado por Lampert e Merlussi dentro dos sistemas padrão de lógica modal, defenderei que o argumento falha em “traduzir” a nossa intuição sobre a agência e o livre-arbítrio. Para isso, me apoiarei nas considerações de Jenkins (2009), segundo as quais a lógica modal padrão não “traduz” propriedades humanas, e o fatalismo fraco distorce a forma como opera a agência humana ao disfarçar-se de alegação universal. Por fim, pretendo mostrar que a utilização do argumento de Church-Fitch na discussão sobre livre-arbítrio para defender o fatalismo pode ser bloqueada por uma solução inspirada na estratégia de reinterpretação que Fara (2010) oferece para resolver o paradoxo original na epistemologia. O colapso lógico é impedido ao substituir o operador de possibilidade modal padrão (◇) por um operador de capacidade (C), bloqueando, assim, o argumento fatalista.
Oficina LEME com Pedro Merlussi (PUC-Rio)
Como o Livre-Arbítrio Colapsa com o Paradoxo da Conhecibilidade
O paradoxo da conhecibilidade (Church-Fitch), descoberto por Church num parecer de 1945 e mais tarde publicado por Fitch, mostra que, a partir da premissa aparentemente inofensiva de que toda a verdade é conhecível — a tese antirrealista segundo a qual não há verdades em princípio inacessíveis à mente —, segue-se logicamente a conclusão absurda de que toda a verdade é, de fato, conhecida. O paradoxo opera através de uma instância autorreferencial: aplicada à conjunção "p e ninguém sabe que p", a premissa da conhecibilidade gera uma contradição, e força o colapso da tese antirrealista na tese da onisciência.
Apresento um argumento estruturalmente análogo, mas dirigido não ao conhecimento, e sim ao livre-arbítrio. Usando o operador "sem escolha" N — central na literatura sobre o Argumento da Consequência de van Inwagen —, mostro que uma premissa igualmente modesta, a que chamo Fatalismo-Fraco (a tese de que toda verdade poderia ter sido tal que ninguém tivesse escolha sobre ela), colapsa, por meios puramente lógicos, na tese muito mais forte do Fatalismo (a tese de que ninguém tem escolha sobre nenhuma verdade). O argumento não pressupõe determinismo, indeterminismo, nem presciência divina; depende apenas de princípios modais básicos que regem o operador N.
Discutirei ainda a proveniência histórica desse paralelismo — observado de passagem por Fara (2010), mas até agora pouco explorado na literatura sobre livre-arbítrio —, e mostrarei que vários dos princípios cruciais ao argumento (nomeadamente, Conjunção e Fechamento) já são aceitos, ou estão implicitamente pressupostos, por incompatibilistas de diferentes tradições. O argumento sugere, assim, que a defesa do livre-arbítrio exige rejeitar precisamente aquela premissa — Fatalismo-Fraco — que, à primeira vista, parece a mais inócua de todas.
Seminário LEME com Ludovic Soutif (PUC-Rio)
Dinâmica cognitiva indexical e sensibilidade à ocasião
Apresento uma solução para o problema da dinâmica cognitiva dos pensamentos indexicais, alinhada com a perspectiva contextualista radical sobre a individuação de conteúdos. Em primeiro lugar, defendo que, se a perspectiva contextualista radical estiver correta, a questão de saber se dois conteúdos de pensamento são os mesmos não tem uma resposta clara, independentemente da circunstância em que a pergunta é feita e das ocasiões em que os conteúdos são comparados. Afirmo que este ponto se aplica aos conteúdos de pensamento em geral e aos conteúdos indexicais em particular. A seguir, proponho dois critérios de individuação sensíveis à ocasião: um intrassubjetivo, relacionado às atitudes epistémicas, e outro intersubjetivo, relacionado à necessidade de comprovar a verdade de uma afirmação. Em segundo lugar, mostro que abordar a questão da dinâmica cognitiva indexical segundo a linha kaplaniana depende de suposições infundadas, explicitamente contestadas pela perspectiva contextualista radical. Por fim, apresento uma solução não kaplaniana que concilia tal perspectiva com os requisitos (independentes) do dinamismo e do holismo.